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PROJETO DO GOVERNO DÁ À RECEITA
PODER DE POLÍCIA
Autor(es): Renato Andrade
O Estado de S. Paulo -
11/03/2010
Após dez meses em hibernação na
Câmara, os deputados vão começar a discutir nas próximas semanas um pacote
tributário enviado pelo governo que promove uma verdadeiro cerco aos
contribuintes. No meio dos artigos para criar novos mecanismos de cobrança das
dívidas ativas e penhora de bens, a Fazenda quer que seus fiscais ganhem poderes
de polícia, sem autorização judicial. Os fiscais podem quebrar sigilo, penhorar
bens e até arrombar portas de empresas e casas sem autorização prévia do
Judiciário.
O pacote cria um sistema de
investigação com acesso a todos os dados financeiros e cadastros patrimoniais
dos cidadãos. A nova sistemática de cobrança valerá tanto para a
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, órgão responsável pela gestão da dívida
ativa da União, quanto para as similares nos Estados e municípios. No limite, a
penhora poderá ser aplicada contra uma grande empresa ou contra um
contribuinte-pessoa física que tenha deixado de pagar o IPTU ou o IPVA. Na
prática, um oficial da Fazenda, mesmo sem autorização de um juiz, pode arrestar
uma casa ou um carro para quitar uma dívida tributária com o município.
As três propostas foram
enviadas em abril do ano passado, mas só agora começaram a ter tramitação
efetiva - no mês passado foi criada a comissão especial da dívida ativa. O
deputado Jurandil Juarez (PMDB-AP), que preside a comissão, pretende organizar
ao longo dos próximos meses audiências públicas para discutir as propostas. O
deputado João Paulo Cunha (PT-SP) será o relator das matérias.
A retomada das discussões não
passou despercebida por entidades empresariais, tributaristas e pela seção
paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que classificou as medidas como
abusivas e inconstitucionais. O Planalto alega que as propostas são
"indispensáveis" à "modernização" da administração fiscal e diz que está
garantido aos contribuintes o princípio da "ampla defesa".
A OAB-SP, entretanto, entende
de outra forma. "O conjunto de proposições choca pela forma contundente com que
se pretende transferir, sem a intermediação salutar e constitucionalmente
determinada do Poder Judiciário, e sem o devido processo legal, patrimônio
jurídico dos particulares", afirmou a entidade em parecer entregue no mês
passado ao presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), logo após
a criação de uma comissão especial para discutir três dos quatro projetos de
lei.
Anteontem, o advogado-geral da
União, Luis Adams, defendeu o pacote de vigilância fiscal no Conselho Federal da
OAB. Adams disse aos advogados que as medidas são de interesse do Estado, e não
do governo, pois ajudam a defender a sociedade dos sonegadores. As medidas,
afirmou, ampliam o poder de fiscalização do Estado. Ele admitiu que a pressão
administrativa da Fazenda e da Receita vão ajudar o contribuinte a ficar mais em
dia com o Fisco.
Para o presidente da OAB, Ophir
Cavalcante, o pacote tem "viés autoritário" e "joga no lixo a presunção da
inocência que vale para todo o cidadão, tenha ou não problemas com a Receita".
As medidas, acrescentou, "só são boas para o governo, que quer chegar o mais
rapidamente possível ao bolso do contribuinte, mesmo que à custa da quebra de
todos os paradigmas do processo tributário".
Fonte: O Estado de S.
Paulo - 11/03/2010